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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vivendo acima do peso

24 anos morando no Brasil. 24 sem nunca ter o menor problema com meu peso. Pelo menos 10 desses 24 anos (dos 14 aos 24) eu sempre pesei entre 48 e 53kg e segundo especialistas esse é meu peso ideal. Eu sou uma menina miúda, tenho somente 1.53 de altura. Antes dos 13/14 eu não pesava nem 45kg, durante o ensino fundamental eu era chamada e Olívia Palito e perna de graveto. Magrela e era a palavra que me definia...

Entrei pra adolescência e os hormônios me deram formas me mulher. Os seios sempre foram modestos e ainda são, mas o quadril arredondou e a bunda ficou bem saliente. Com isso ganhei uns quilinhos, o que acabou com meu título de magrela e me rendeu um título de boazuda. Era assim que vários seres do gênero masculino se referiam a mim: gostosa, boazuda, delícia, etc. Ouvia esse adjetivos diariamente de estranhos na rua, de colegas da escola, de carinhas em shows, dos amigos do meu pai. Eu era uma menina de 15 anos e já tinha que saber me defender dos famosos "tarados", só que eles estavam por toda parte e não se contentavam somente em dizer os adjetivos (muitas vezes gritados no meio da rua), eles queriam encostar, passar a mão nas curvas recém adquiridas, "tirar uma casquinha". Tive que lidar com isso até o dia que mudei do Brasil, aos 24 anos de idade.

Réveillon 2003, aos 20 anos 
Então mudei pra Holanda e em pouco tempo comecei a perceber que as roupas que eu trouxe do Brasil já não me serviam mais. Subi numa balança e pela primeira vez na minha vida eu me assustei com o que vi. Em somente 6 meses morando na Holanda eu tinha subido de 53 pra 58kg! Assustei porque nunca tinha passado dos 53kg na vida e nunca tive problema algum em entrar nas roupas que tinha. 

Primeiro final de semana na Holanda, aos 24 anos

Achei que meu corpo estava reagindo às mudanças, fuso horário diferente, hábitos alimentares diferentes, menos atividade física, mais tempo livre pra atacar a geladeira, etc. Não me preocupei muito, afinal era inverno e eu precisava comprar roupas novas de qualquer jeito. Daí chegou a primavera e as roupas do Brasil que antes estavam um pouco apertadas, agora já nem entravam mais. Subi na balança de novo e BAM! dos 58 aos 63kg. Dez quilos em um ano! Era hora de fazer algo. Comprei um tênis e comecei a sair pra caminhar todos os dias, 90 minutos por dia. Nessa época eu parei de engordar, consegui me manter por volta dos 60kg por um bom tempo só deixando de ser sedentária.  Mudei pra Bélgica durante o outono e percebi que não iria conseguir sair pra caminhar todos os dias com chuva, vento, granizo e até neve. Então pela primeira vez na vida me matriculei numa academia. Odiava, mas ia todos os dias. Fazia aula de Spinning, Pilates, fazia esteira, fazia bicicleta. Achava tudo uma merda, mas ia. E assim eu mantive os 60kg por um ano. Mas ainda não conseguia emagrecer...

Dois meses na Holanda, a calça já não ficava folgada mais
Foi aí que entrei pro mundo louco das dietas. Fiz dieta da sopa, dieta das notas, dieta dos sucos, dieta das proteínas. Contei caloria de cada garfada, teve época de eu comer só 800 calorias por dia. Com isso eu fui me sentindo cada vez pior, comecei a odiar meu corpo, comecei a me odiar por deixar chegar naquele ponto. Dez quilos em um ano, como isso aconteceu? Eu tinha só 26 anos, se continuasse desse jeito eu iria pesar 90kg quando chegasse aos 40. Eu parei de usar bikini, comecei a comprar roupas largas pra não marcar "as banhas" e continuava a fazer dietas malucas. Cheguei ao ponto de substituir minhas refeições por diet shakes. Meu intestino só funcionava de duas formas, ou eu passava semanas constipada ou eu passava semanas de diarreia. Minha pele ficou horrível, meu cabelo e unhas quebradiças. Foi uma época horrível em que eu estava mais preocupada com os números na balança do que com a minha saúde. E o pior é que mesmo com essas dietas malucas e academia cinco vezes por semana, eu não conseguia diminuir os números na balança. Ficavam sempre ali entre 60 e 63kg.

Dezembro de 2013, por volta de 65kg
Voltei pra Holanda e continuei com as dietas malucas. Me inscrevi na academia mais próxima de casa, só que essa não era tão próxima assim, eram 15 minutos de bicicleta. Acabou que essa distancia começou a servir de desculpa pra não ir. Ao invés de ir todos os dias eu comecei a ir só duas vezes por semana, daí uma vez, daí comecei a passar uma semana inteira sem ir, duas semanas, três e por aí vai. Chegou ao ponto de eu passar 3 meses inteiros sem pisar lá. Gastando dinheiro pra nada. Foi mais ou menos nessa época que eu desenvolvi um distúrbio alimentar. Comecei a comer compulsivamente, descontava tudo na comida, tudo era motivo pra entupir. Estresse, frustrações, tristeza, depressão...eu comia até passar mal. Nessa época eu ainda trabalhava pro correio, então andava muito de bicicleta e por isso não percebi os efeitos desse distúrbio alimentar. Eu comia um pote de sorvete sem perceber e depois ficava me sentindo super mal, super culpada, daí passava o resto da semana comendo menos que mil calorias por dia. Mas como ainda fazia atividade física todo dia o ponteiro da balança só subiu um pouco nesse período, cheguei a pesar 65kg.

Entrei pra faculdade e deixei de trabalhar pro correio. Aí o sedentarismo aumentou muito, junto com os níveis de estresse e insegurança. Eu sempre dizia pra mim mesma: 'a partir de segunda eu vou me programar pra ir à academia ao menos três vezes por semana'. Toda segunda eu falhava. Mas nessa época eu comecei a aprender mais sobre nutrição e mudei meus hábitos alimentares. Foi então que parei com as dietas malucas e comecei a comer comida de verdade. O problema é que eu só via comida como componentes, quantidade de proteína, de carboidrato, de vitamina isso e aquilo, açúcares, etc. Eu ainda enxergava a comida como um mal necessário, um inimigo. Mas pelo menos eu tava comendo a quantidade de calorias necessárias pra funcionar e estava comendo comida e não tomando shakes. Meu intestino voltou a funcionar, meu cabelo, pele e unhas voltaram a ter brilho e eu voltei a me sentir com mais energia, mais saudável. Eu ainda odiava meu corpo e minha relação com a comida ainda era longe de saudável, mas pelo menos eu não estava mais me matando.

Outubro de 2013, chegando aos 70kg, roupas largas pra disfarçar
Daí começou o segundo ano da faculdade e o nível de estresse foi o maior que já tive na vida. Eu contei aqui o quanto que foi difícil passar por esse ano letivo. Foi nessa época que minha compulsão alimentar chegou ao seu pico e como eu estava bastante sedentária acabei engordando mais um bocado, no final do ano letivo eu cheguei a pesar 73kg. Nunca imaginei que fosse possível passar da casa dos 70, mas aconteceu sem eu nem mesmo perceber. Eu só fui notar que estava usando a comida como válvula de escape pro estresse já no final do ano letivo. Quando finalmente tudo acabou eu resolvi fazer uma revolução na minha vida.

Desde julho eu parei de ver comida como inimigo e também como calorias ou componentes. Comida é bom, comida é saúde e energia! Hoje em dia eu vejo comida como comida...Eu procuro evitar frituras, açúcar e coisas processadas. Também evito tudo que não seja integral. Mas perceba que a palavra chave é EVITAR e não cortar de vez, porque isso não funciona. Simplesmente tento não consumir essas coisas no dia-a-dia. O que eu consumo são produtos mais próximo possível da sua forma natural, muitas verduras e legumes, bastante frutas e carnes. De preferencia feito em casa, com ingredientes que sei de onde vem. Não conto mais calorias e nem componentes. Um prato balanceado e colorido contem todos os nutrientes que necessito, e se hoje eu consumo menos de nutriente X, com certeza irei consumir mais amanhã. Então não há com o que se preocupar. Minha relação com comida tem melhorado muito e a compulsão tá bem controlada. Antes de eu comer qualquer coisa eu me pergunto porque estou comendo aquilo, é por fome ou por prazer? Se for por fome eu como até me sentir saciada, nem mais nem menos. Se for por prazer eu limito a quantidade, pois entupir daquilo não vai me dar prazer de jeito nenhum, então como só a quantidade que acho apropriada e paro. Também estou aprendendo à dizer NÃO quando alguém me oferece algo. Dizer não é uma forma importante de aprender a controlar a compulsão.

Vestido que comprei pro réveillon de 2012 porque ficava larguinho, em junho de 2014 mal consegui entrar nele

O problema estava sendo fazer atividade física, mas por sorte abriu uma academia 24h bem na esquina da minha casa. Me inscrevi lá e tava indo 3 ou 4 vezes por semana. Mas daí comecei o estágio e tava tentando ir depois do jantar, mas aí já sabe né, a preguiça domina e acabava indo no máximo 1 ou 2 vezes só. Então meu marido teve a brilhante ideia de acordar cedinho e ir antes do trabalho. No início eu achei que não daria conta, mas agora eu to indo sem o menor problema. Todo dia às 6 da matina lá to eu fazendo 45 minutos de esteira ou usando algum equipamento pra definir a massa muscular. E assim eu vou, devagarinho, procurando ser mais saudável e me odiar menos. 

Julho de 2014, com 73kg
Não vou mentir, é lógico que quero perder peso, principalmente porque tenho um armário cheio de roupas legais e não caibo mais em nem 1/3 delas. Na Holanda não dá pra ser baixinha e gordinha, não há roupas desenhadas pra isso. Ou você é alta e gordinha ou baixinha e magra, idealmente alta e magra. Então acabo comprando o que serve e não o que gosto. Mas meu principal motivo é a minha saúde, cansei de sentir que vou morrer ao subir um lance de escada, cansei de achar que meu coração vai explodir ao correr 20 metros pra pegar o metrô. Eu quero sentir que sou dona do meu corpo e não vou mais deixar que fatores externos me influenciem.

Esse verão eu aprendi como é libertador colocar um bikini estando 20kg acima do peso e ligar o foda-se. Não que eu precise de validação masculina, mas meu marido me conheceu com 53kg e vivenciou todo o processo de ganho de peso ao meu lado. Em momento algum ele deixou de me achar atraente, em momento algum ele me pediu pra voltar a ser magra. Ele fica sim preocupado quando eu corro um pouco e falto morrer, mas ele sempre esteve ali dando apoio e aguentando meus momentos de fraqueza. As vezes que eu tive minhas crises de choro porque meu vestido preferido já não me cabia mais, ele nunca me mandou fechar a boca, pelo contrário, ele sempre ficou receado com as dietas malucas que eu fazia. E depois de 5 anos lidando com o ganho de peso eu estou aprendendo a me ver do jeito que ele me vê, estou também percebendo que a minha saúde é mais importante do que uma cinturinha fina. É um caminho longo e difícil pra chegar na auto-aceitação, mas sem chegar lá só existe auto-destruição....


2 comentários:

  1. Vixi, escrevi um comentário enorme e não foi... :'(

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  2. Eu sei bem como é sofrer com o sobrepeso, a vida toda fui assim. Desde que engravidei do Raul consegui perder 34kg e pela primeira vez na vida estou magra, porém não emagreci de forma saudável e isso é horrível! Logo mais vou contar essa história no meu blog.
    Te desejo toda a sortee que você alcance seu objetivo da melhor maneira possível, com muita saúde!

    PS: você é linda independente do peso e aquela regata do AF é muito amor <3

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